sexta-feira, 27 de junho de 2014

Capítulo 1


- Você nunca foi a filha que eu merecia. - o ferreiro gritava com uma garota que descia a rua.
Mais uma briga matinal. Demetria secou a única lágrima que escorreu por sua bochecha e continuou o caminho para escola. Ela já estava atrasada e resolveu pegar um atalho, observando as cores cruas que recobriam as casa e ruas da cidadezinha que se recusava a modernização. As nuvens densas e escuras faziam neblina naquela manhã. E então, subitamente, o corpo de Demetria se chocou contra a parede, seus olhos permaneceram abertos e ela já não estava mais ali.

"-Venha, pule! - o homem sorria estendendo sua mão para a jovem que Demi tinha certeza ser ela, a não ser pelos cabelos, vermelhos como o fogo.
Ela olhava para a mão do cavalheiro, forte e robusta, levantando a cabeça viu o sorriso dele e as órbitas negras de seus olhos brilharem ao ver o retorno das covinhas da mulher.
A donzela levantava a barra de um longo simples vestido de veludo turquesa enquanto pulava para uma pedra do riacho que atravessavam, recusando a mão do cavalheiro.
- Posso fazer isso sozinha. - ela levantava uma de suas sobrancelhas e o olhava com desafio. 
- Como quiser. - ele fez uma reverencia. - Mas aposto que não me alcança. 
Era uma corrida. Ela aceitou o desafio e começou a pular loucamente as pedras no caminho para atravessar o riacho. Ela o alcançou na ultima pedra e o cutucou por trás, quando ele se virou, não era mais o cavalheiro que lhe estendeu a mão. Era um... Demônio."

Demi suava de volta a realidade. Nunca havia acontecido um devaneio tão forte dessa maneira. Ela abriu o celular antigo, com apenas uma torre de sinal e viu que tinha perdido metade do primeiro horário. Então ela correu, enxugando a testa de suor.
"Mas o que foi que aconteceu comigo?" Demetria se perguntava enquanto se sentava constrangida  pelo atraso na sala de aula. Ela vasculhou a memória em busca de detalhes que não percebeu na hora. Eles estavam numa floresta desconhecida para ela, o riacho era muito fundo, pois, apesar da água ser cristalina não era possível visualizar o fundo e devido a roupa de ambos, eles não se encontravam na época atual. Demi se forçou mais um pouco na procura de algo. Castelo. O Castelo Tintagel estava no fundo das altas árvores, que apesar de altas, não tiravam a visão do enorme castelo, símbolo da riqueza de sua cidade na Idade Média. Porém, estava se desintegrando e a prefeitura não continha o dinheiro para sua regeneração e preservação. "Preciso ir lá". Demi concluiu.
O mais importante : Quem era aquele homem?
A aula acabou, Demi foi através da praia para sua casa, perturbada com tudo aquilo em mente e nenhuma maneira de interpretar o que viu. As nuvens que recobriam o céu se foram, mas o frio era presente. Ela conseguia ver o castelo de longe, em cima de um rochedo de frente para o mar. Como Demi amava aquele lugar. Desde criança ia para lá quando brigava com seu 'pai' e gostaria de chorar, adorava descobrir suas inúmeras passagens secretas e brincar de ser uma princesa. Sempre deserto, o castelo lhe inspirava, e se fazia seu lar, mesmo o dividindo com aranhas e muita poeira.
Chegando em casa foi fazer o almoço. Sua casa era simples, de madeira, com poucos cômodos e um estábulo transformado em uma oficina para seu 'pai' exercer a profissão de ferreiro. Seu pai é homem humilde e amava a mulher mais do que tudo, mas, após a morte de seu amor ele mudou, ficou frio e distante. Demi sempre soube sobre sua adotação, foi adotada aos 12 anos e 2 anos depois sua 'mãe' morreu. Ela nunca quis saber sobre seus pais biológicos, se a largaram, não mereciam saber dela. E atualmente, seu pai quando discute sempre utiliza o argumento da adoção contra Demi, o que a machuca muito.
O panela que Demi segurava caiu no chão.

" Seu 'pai' fazia carinho em um gato branco, que ronronava feliz. O gato saiu do seu colo e foi caminhando até se enroscar no pé de uma mulher que o pegou no colo. Era sua 'mãe'."

- Menina, acorda! - seu pai gritava.
- Pai! - Demi o abraçou.
- Ow, Demetria, me perdoe por hoje. - seu pai nunca pedia perdão.
- Ta tudo bem!
Gato, sua 'mãe' e seu 'pai' juntos... Isso só significava uma coisa: Morte.


Continua...


O que acharam, pessoal? Comentem, por favor.
Beijos.

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